quarta-feira, 26 de novembro de 2008

Capítulo IV - A trilha do horizonte (ou Os primeiros passos de uma jornada)

Secou as lágrimas, olhou novamente ao seu redor e constatou que, por um instante tinha sido ouvido, mas, num segundo depois, num momento quase automático tudo o que havia sido abalado, voltara ao seu lugar de origem, os moribundos aos seus copos, os lamentadores à sua cantiga lacrimal e os desolados a posição de estátua, olhando para o nada, tentando ver ali algo que nem mesmo eles sabiam o que era.
Tentou não se entregar, naquele momento ele tentaria mover-se, tentaria de alguma forma arrancar seus pés daquela lama que o prendia, puxaria, forçaria, alguma forma havia de sair dali, mas, parou, lembrou do grito e ainda sentia o frescor que as lágrimas proporcionaram a ele, sentiu medo, sentiu uma dor que começava lá longe do corpo e vinha, com tanta força, mas, tanta força que lhe socava o peito, amassando, comprimindo e parando, para começar novamente a tomar força e vir em sua direção. Pensou consigo, pensou sorrir pela idéia que teve, e, se entregou à pancada, que, de tão forte, consiguiu fazer com que sua perna, num momento quem sabe de susto, ou se preparando para suportar a dor, meche-se, sentiu seus ossos rangerem, sua carne e musculos poderiam até falar naquele momento, ESTAMOS VIVOS... lembrou que caminhar era um, após o outro, e se pôs a repetir isso, um, dois, um, dois e estava andando, pegou um copo e algo que lhe parecia útil e foi até o rio sangrento, caminhou para um local do rio que, sem explicação alguma, afastava as pessoas, ali, do chão brotava água limpa... ele encheu seu copo, tomou um grande gole, abaixou-se com o que estava na mão, e, lembrou-se tratar de um cantil, o encheu até a tampa e dessa vez, sorriu.. virou-se em direção ao sul e partiu, agarrado a um papel que lhe falava pouco, mas, que significava muito.
Tentou não olhar para trás, como imaginou tantas vezes aquele momento, mas, olhou e ninguém o seguia, nem mesmo o velho cachorro, nem mesmo os lamentos, nem mesmo a dor ou a visão de morte que encharcava aquele lugar... olhou novamente para frente, e, naquele momento sentiu-se vivo...

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Capítulo III - A ilha sem sol (ou A nuvem)

Naquela ilha, ao sul do mar sem vida, as pessoas tateavam-se, afim de reconhecer alguém, para que pudessem conversar, falar sobre o que não viam, ou sobre algum esbarrão em um velho conhecido. O assunto que todos negavam dar-lhe um mísero comentário, era o que não se via, era a escuridão que tomava conta daquela pequena ilha, ninguém sabe o que realmente aconteceu, e, se soubessem, com certeza não falariam, desde o dia, que aquela nuvem, que, de tão pequena não faria graça nem aos enamorados em busca de formas foi crescendo, tomando conta do céu, apagando a memória visual de todos, apagando os monumentos, as praças, aquele velho farol que agora, não brilhava, morrera sem dar a luz aos outros. O sol foi embora, e com ele, toda a esperança de um povo.
Não se via ali fogueiras, velas ou candelabros, as pessoas acostumaram-se à escuridão, deram-se à cegueira da mente, sendo que seus olhos estavam sãos. Ela, que se identificava com tapas carinhosos nos que encontrava, pensou ouvir um grito, que de tão alto e tão forte, talvez pudesse um mundo todo abalar, mas, resignou-se, "deve ser minha pobre imaginação" - pensou, e se pôs novamente, a andar no seu passo lento, afim de ver ali algo que lhe desse coragem de abrir os olhos da mente... mas, não viu nada, como sempre...

segunda-feira, 24 de novembro de 2008

Capítulo II - O povoado do norte (ou O que restou do mundo)

Ainda olhava para o papel, descrente que em um lugar tão sem vida haveria de encontrar algo que o fizesse, pelo menos por um pequeno instante, acreditar em algo. Naqueles dias, ou meses, ou anos quem sabe, a única coisa que ouvia era o lamento incessante dos poucos que lutavam por sobrevivência, que, havia de admitir, a cada dia eram em menor quantidade, nunca em menor intensidade. O lamento era algo que lhe reconfortava, dava-lhe esperança de que algo poderia ser diferente. Mas o que o incomodava era o que não ouvia, o barulho que não faz o contentamento, a descrença... a entrega de tantos machucava-lhe a alma, cortava-lhe o resto dos pulsos que jaziam intocáveis das feridas que a guerra lhe trouxe. Onde estava o choro dos que sentiam dor? Onde estavam as lágrimas que cortavam o rosto barramento, cinzento de pó, de lixo, de tudo o que aquele lugar havia se tornado.
Num momento pegou-se olhando ao seu redor, como se pegara tantas e tantas vezes, ao fundo via carros tombados, tantos e tantos que acreditaria que os edifícios ainda estavam de pé, um rio que, por mais que tente esquecer, a vívida memória lhe fazia companhia, para lembrá-lo a cor vermelha que correu por tantos meses, a cor do sangue de tantos mortos que ali foram jogados, estraçalhados por alguém que não podiam ver, agora, a água já estava barrenta novamente, lá haviam pessoas, aos montes, enfiando seus copos naquela água e bebendo, sem se preocupar com o que ali havia, sem se preocupar com doenças, pestes, morte... Talvez bebessem a água com o intuito de enfim, encontrar a morte, que, num momento de felicidade única, lhes daria o seu beijo final e assim, descansariam do pesar da vida...
Apertou o papel na mão, tentou chorar, mas, naqueles dias, meses ou anos, quem sabe, as lágrimas haviam se secado, como o barro que torra ao sol, algo no coração de todos havia torrado, a única coisa que conseguiam era o lamento, e, depois de tanto tempo, grande parte dos que tinham esse dom, simplesmente, tomaram consigo seu copo e foram deitar-se à beira do rio sangrento. Desamassou o papel, leu novamente o que havia escrito e perguntou-se: - Será que ainda posso gritar? - falou tão baixo, que, nem em um milhão de anos teria força para acreditar em sí mesmo, ou que daquele fraco pulmão pudesse sair uma propulsão de ar capaz de manifestar o sentimento que ali lhe aflorava, naquele instante, naquele momento, um sentimento tão grande, mas tão grande, que, se pudesse expressá-lo de outra forma, não haveria formas no mundo que ele conhecia, que fossem, pelo menos em um momento, capazes de exprimir o que só um grito poderia.
E gritou...
E foi ouvido...
E pensou estar sorrindo...
Mas estava, chorando...

domingo, 23 de novembro de 2008

Capítulo I - Jardins do infinito (ou O papel)

No resto de papel queimado, só conseguiu ler essas palavras: "No infinito, há jardins..."